27.5.11

Uma respiração

Você costuma falar sobre seus processos sempre em aberto – processo criativo ou leituras, por exemplo. O caráter intermidiático de sua obra é uma tradução de seu próprio caráter, “permeável a tudo”?

Nunca pensei nesses termos, para ser bem sincero. Creio que somos, nós, os autodenominados seres humanos, permeáveis a tudo. Todas as coisas do mundo nos afetam, dizem algo a nossa sensibilidade. O mundo é relação. E há a possibilidade de escolha: deixar-se afetar é algo bem diferente da atitude que defendo, que é a de estar atento ao que nos afeta. Tem a ver com a ideia de influência, de certo modo. Você pode ser influenciado por algo ou alguém, como quem é contaminado por uma força necessariamente superior à sua, e pode, por outro lado, compor com essa força, extrair dela o entendimento de seu próprio limite e, assim, contaminá-la de alguma forma. Sou, ao mesmo tempo, afinal, o que é olhado e o que olha; o que, ao ser olhado, afeta o olhar de quem olha para o que sou, somos. Desta perspectiva, sim, posso dizer que o “caráter intermidiático” de minha obra é, mais que a tradução, uma linha análoga ao meu modo de viver, enquanto sujeito homem (pai, amante, amigo, cidadão, professor, filho, irmão, consumidor, viajante).

N(1): A pergunta e a resposta acima foram extraídas da entrevista que concedi ao jornalista, escritor e tradutor Reuben da Cunha, para publicação no número de estreia da revista eletrônica semeiosis, editada por estudiosos ligados ao Grupo de Pesquisa Semiótica da Comunicação coordenado pelos professores Irene Machado e Vinicius Romanini, do Departamento de Comunicações e Artes (CCA) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. A iniciativa da equipe de semeiosis me enche da mais viva alegria e da forte impressão de que, neste país dominado pelo “neobarraco” das novas Casas Grandes literárias – empenhadas tanto em firmar cartorialmente seu território quanto em tentar obstruir a trajetória de seus oponentes, por meio da difamação e da censura –, ainda é possível o estabelecimento de espaços de aproximação dialógica e respeito às diferenças de opinião sobre a cultura e a arte. N(2): as duas versões do poema "real irreal" que se lê nesta postagem pertencem ao meu livro Modelos vivos.

6 comentários:

Bruno Brum disse...

Bacana demais a entrevista. Lúcida, crítica e reveladora dos seus processos de trabalho. Parabéns a você e ao Reuben, que caprichou no material. Agora, sou obrigado a discordar do comentário de que o país é dominado pelo Neobarroco (isso existe mesmo?): pode até existir meia dúzia de poetas da tal corrente tentando firmar cartorialmente seu território, mas os ditos cujos são tão fraquinhos que sua influência sequer chega a ultrapassar os limites das suas próprias panelas, tornando-se meras e tristes caricaturas de si próprios. Abraço!

Cândido disse...

Disse tudo o Brum. neobarroco parece mais com um nome. tão só.

Ricardo Aleixo disse...

Bruno, Cândido: pouco se me dá que alguém dedique seu tempo a brincar disso ou daquilo – quer se trate de preferências sexuais ou literárias (afinal, também gosto de alguns brinquedinhos inortodoxos...). NÃO ACEITO é o NEOBARRACO, i. e., a propensão para o BARRACO que uns & outros cultivam, por aqui, quase sempre com sorrisinho hipócrita na cara, com o fim de esconder o caráter excludente das ações entre amigos às quais dão o nome de “projetos literários”. É isso. Abraços!

Marcelo Kraiser disse...

Brilhante a resposta do Ricardo Aleixo.E há que se diferenciar entre o Barroco histórico (que é possível restaurar,comemorar,ignorar) e o barroco como método de dobragem das matérias e destas com o pensamento,tema desenvolvido por Gilles Deleuze.Nesta última acepção,o Barroco histórico é um caso particular do barroco operatório.Já o barroco histérico é outro departamento...

Ricardo Aleixo disse...

Pois é, Kraiser: o "barroco histérico" é jogo duro, não é? Falando de coisas mais interessantes: sua performance foi qualquer coisa de impressionante. Ainda bem que filmei tudo. Abraço!

Marcelo Kraiser disse...

Que bom que você achou impressionante.Eu me diverti muito.Acho que muita coisa pode melhorar ou piorar neste tipo de apresentação para fortalecê-la (nunca fico satisfeito...).A Virgínia gravou uma fala sua que gostei muito,sobre as condições da poesia aqui,postarei no Improvisions.
Agora é pensar nas próximas atividades,barrocas ou não.