13.5.10

13 de maio



Sempre tive muito respeito e gratidão pelos pretos velhos. Carinho. Tento enxergá-los (e ouvi-los) para além de sua aparente submissão. Nas culturas de extração africana o que é aparente tem valor porque fala do segredo. Não de um, mas do segredo. E é nesse jogo de limites tênues entre visível e invisível que o sagrado se enuncia. E se firma. E confirma nosso pertencimento ao mundo e ao cosmo. O videoartista coreano Nam June Paik percebeu isso quando participou, em São Paulo, da 11ª edição do Festival Internacional Videobrasil, em 1996. Guiado por sua poderosa intuição, o senhor Paik remontou a comovente instalação TV Buddha, um dos destaques de seu repertório, substituindo a figura do memorável mestre oriental pela de um Preto Velho. Simples e direto como um mantra. Complexo como o movimento que transforma, durante a tortuosa travessia do mar Atlântico Negro, a bela palavra salvar em outra ainda mais bela: saravá!


4 comentários:

marcelo sahea disse...

Saravá todos os pretos e pretas-velhas!

Paulodaluzmoreira disse...

Vc conhece Charles Chesnutt? É um escritor afro-americano contemporâneo de Machado de Assis, que escreveu um livro de contos maravilhoso narrado por um preto-velho made in usa. É prosa mas é poesia e forte demais, mesmo porque remexe com as memórias do tempo da escravidão do personagem/narrador Uncle Julius. Só uma palhinha [desculpe a folga de mandar um comentário tão grande] do conto "Dave's Neckliss":
"Dave use' ter b'long ter my ole marster," said Julius; "he wuz raise' on dis yer plantation, en I kin 'member all erbout 'im, fer I wuz ole 'nuff ter chop cotton w'en it all happen'. Dave wuz a tall man, en monst'us strong: he could do mo' wuk in a day dan any yuther two niggers on de plantation. He wuz one er dese yer solemn kine er men, en nebber run on wid much foolishness, like de yuther darkies. He use' ter go out in de woods en pray; en w'en he hear de han's on de plantation cussin' en gwine on wid dere dancin' en foolishness, he use' ter tell 'em 'bout religion en jedgmen'-day, w'en dey would haf ter gin account fer eve'y idle word en all dey yuther sinful kyarin's-on.

"Dave had l'arn' how ter read de Bible. Dey wuz a free nigger boy in de settlement w'at wuz monst'us smart, en could write en cipher, en wuz alluz readin' books er papers. En Dave had hi'ed dis free boy fer ter l'arn 'im how ter read. Hit wuz 'g'in' de law, but co'se none er de niggers did n' say nuffin ter de w'ite folks 'bout it. Howsomedever, one day Mars Walker--he wuz de oberseah--foun' out Dave could read. Mars Walker wa'n't nuffin but a po' bockrah, en folks said he could n' read ner write hisse'f, en co'se he didn' lack ter see a nigger w'at knowed mo' d'n he did; so he went en tole Mars Dugal'. Mars Dugal' sont fer Dave, en ax' 'im 'bout it.

Carol Lara/nota bemol clara disse...

que lindo!

ronald augusto disse...

bah, ricardo. muito foda e simples essa operação sígnica do nam june paik.

abração