18.4.09

Rádio Sarduy

Densos exercícios de alteridade, os orikis de Severo Sarduy estruturam-se como décimas (dez versos de sete sílabas), solução rítmica que revela-se bastante eficaz quanto à indicação dos vínculos com a "voz viva" – sem a qual não se produz a relação com a divindade, no âmbito das religiões de origem africana. O poeta não nos dá a mera transcrição "letrada" da cosmogonia nagô: a estratégia que ele adota, bem mais sutil, é fundir à musicalidade inerente a uma determinada prática vocal de extração popular a imagética da religião dos orixás, com sua noção de tempo circular e uma ética do excesso – via repetição, propiciadora do transe –, a qual se pode, sem embargo, definir como próxima da estética barroca, como sugere este fragmento do cântico VII, dedicado a Oyá: "(...) Su passo, que se apresura, y el mármol barroco y serio,/ sellarán todo misterio./ Guarda, tras nueve colores,/ guardañas, círios y flores,/ la dueña del cementerio." Como não perceber, aí, para além da exuberante imagética, a presença da voz como elemento de composição, a conduzir a estonteante harmonia fônica que não deixa qualquer dúvida quanto ao fato de que a página impressa, para Sarduy, é dotada de uma nítida dimensão partitural? A voz, para poetas como Severo Sarduy, é o que assegura a possível continuidade do riocorrente da linguagem: o poema é, de tal perspectiva, lugar de passagem para o desrecalque de uma energia vocal que séculos de primado do logocentrismo não lograram domar inteiramente. Sarduy compõe, com e para a voz, um conjunto de 6 roteiros que exibem sua pertença à linhagem dos criadores empenhados em borrar as fronteiras artísticas: se se pode definir tais textos como teatrais (e eles, com efeito, foram agrupados, na Obra completa, sob a rubrica "Teatro"), também é legítimo reafirmar seu matiz radiofônico. Especificamente radiofônico, eu diria, se minha concepção pessoal de rádio não apontasse justo para a relativização, quando não para a total anulação, do que possa haver de "específico" nas práticas criativas contemporâneas. Para tornar ainda mais complexa a possibilidade de classificação desses roteiros, seu autor nos diz, no prólogo de um dos mais realizados, "La playa", que as "variações sobre um tema" que o organizam implicam "uma estrutura musical".
[Os fragmentos acima pertencem ao ensaio intitulado “Rádio Sarduy”, que escrevi, a convite da radioartista e ensaista Lilian Zaremba, para integrar a coletânea Entreouvidos: sobre rádio e arte, a ser lançada em setembro próximo. Também participam do livro Janete El Haouli, Marcos Scarassatti, Steve Berg, Luiz Camillo Osório, entre outros].


Um comentário:

lilian disse...

oi Ricardo, o livro ficou pronto!! manda seu endereço ok ?
bjo
Lilian