20.5.08

poesia




o mar não é um lugar seguro.
a praia não é segura. ontem mesmo
uma família que fazia um
piquenique foi alvejada, em gaza.
uma praia. areia crivada. o declínio
do mundo. uma estrada onde a
margem verde estampa sabor.
penso nas coisas, mas agora enfrentarei
um trânsito em busca de Eliana.
falta de tudo nesta cidade: estações,
estações, estações.
escute a tácita recusa em subir as compras.
e nós moramos num mundo bonito.
há uma pane nos elevadores. subiremos
pelas escadas e nosso esforço
como o condutor do riquixá
naquele filme bonito. a vida é um
filme bonito. pessoas alvejadas, o
mundo cai, as estações, o andar de cima,
penso nas coisas, mas agora enfrentarei
um trânsito. algum lugar.




os arquitetos engoliram os livros da sala
livros são um sem. um nada. um fim.
das coisas. e quatrocentos quilômetros
se chocam no chão. a sua casa está
clara, as coisas retornam à caixa,
ao lar. um brinde ao eterno e natural
das coisas. estamos salvos. uma sala
mesmo estojo e seus compartimentos:
aqui razão, ali aromas verdes, outro
para os explosivos. você merece. você
merece dizer o contrário de. a vida
e o fim das coisas, da tarde, a faixa
do disco. me dê a sua a sua mão. vê esta
linha aqui?


***


carlos augusto lima foi quem grafou as duas pequenas jóias acima. copiei-as do livro vinte e sete de janeiro, recém-lançado por lumme editor (leia-se: francisco dos santos). a capa do livro é de eduardo jorge - como carlos, um jovem mestre da delicadeza, no que esta tem de força guardada dentro, sempre à espera e já em ação. o livro é bonito e denso como tão pouca coisa humana tem conseguido ser. um dia, no feio aeroporto de brasília, a caminho do ceará, mal pensei no carlos e ele apareceu, rumo ao rio grande do sul. conversamos com a calma de quem apenas retoma o fio de uma conversa há muito iniciada e cada um retomou o curso de sua errância. a poesia dele é como ele é: uma conversa que não terá porque nunca teve: fim, começo.

3 comentários:

Heyk Pimenta disse...

Ricardo, perfeito. Gostei do Carlos. COntatos e ditoras a parte, tamb�m sou poeta e gostei da coisa. A coisa n�o linear mas linear na forma me anima muito e � isso a� que t� ca�ando por a�.

Legal. T� anotado aqui o nome do homem.

Abra�o.

Anônimo disse...

O Carlos Eduardo é um silencioso e arguto samurai da palavra, eu sempre soube. Gentilmente me presenteou com uma cópia do livro, e posso dizer com certeza que é extraordinário, pra ficar num adjetivo de baixa extensão para a obra. Lindo livro.

renato mazzini disse...

O Carlos Eduardo é um silencioso e arguto samurai da palavra, eu sempre soube. Gentilmente me presenteou com uma cópia do livro, e posso dizer com certeza que é extraordinário, pra ficar num adjetivo de baixa extensão para a obra. Lindo livro.