19.3.10

Entre a indignação como performance e o silêncio como encenação

O silêncio do poeta e polemista Claudio Daniel acerca da carta aberta que postei neste jaguadarte na semana passada (ver post abaixo) é bastante revelador de um modo de agir caro à lógica burocrática que funda o ambiente mental das classes dominantes no Brasil. Não que Claudio pertença à elite econômica do País – ele apenas emula, dos membros da Casa Grande, a capacidade de fazer com que os olhos vejam sem enxergar, em sincronia com os ouvidos, treinados para ouvir sem escutar. E o que a lógica burocrática tem a ver com isso? Tudo. Tais procedimentos tornam propícia a materialização de uma prática recorrente da burocracia, conforme nos ensina o sociólogo Karl Mannheim: tratar como pertencentes à ordem do “administrativo” problemas que dizem respeito à esfera do político. Essa confusão – e outras correlatas, como a que quer fazer do racismo e da discriminação racial problemas de matiz unicamente econômico, ou a que se nega a perceber as implicações éticas do fato estético-cultural – é, em países de democracia débil, como o Brasil, alimentada cotidianamente em todos os âmbitos da vida social. Inclusive na poesia, que é feita por indivíduos de carne e osso, não por anjos.

Calar-se, como Claudio Daniel se calou, em relação à minha sugestão de que, tendo o problema por ele levantado uma inequívoca dimensão ética, caberia dar encaminhamento jurídico à matéria, para que as instâncias competentes dessem à questão o tratamento devido, equivale a insistir na guarda de um “território” – o da estética apartada da ética. Ou porque impossibilitado de apresentar provas que sustentem suas acusações contra mim, ou porque não me atribui importância bastante para que minha carta merecesse pelo menos uma contestação à altura, Daniel optou pelo silêncio. Um silêncio relativo, porquanto atravessado, aqui e ali, na caixa de comentários de seu blog, por tímidas, eu diria mesmo amedrontadas menções “a concursos como o da Petrobras”. Acuado, Daniel transformou o seu Cantar a pele de lontra – onde, por Zeus Olímpico!, já não se encontra o link para o jaguadarte – numa espécie de... altar de celebração da “beleza” (por meio de uma seleta de fotografias de Manuel Álvares Bravo) e de alguma poesia brasileira que ele aprecia, voltando, dias atrás, a discutir “cânone e anticânone”, com o fim de reforçar o caráter “estético” dos escritos que suscitaram a presente polêmica.

Com essa nova tática, o poeta dublê de crítico sugere que sua cruzada “antipanelinhas literárias” teve, desde sempre, como horizonte, a discussão de questões que passariam ao largo de quaisquer questões éticas ou políticas. Pura desconversa. À maneira de um bom burocrata, Claudio Daniel, finge não ter lido minha carta aberta para não ter que se confrontar em público com dilemas que exigem dele bem mais do que vocação para torneios retóricos em torno de conceitos extraídos da obra téorica de, por exemplo, Ezra Pound, e mais uns três ou quatro nomes que o autor paulistano parece considerar como leitura suficiente para quem se dispõe a enfrentar os problemas estético-culturais de uma época turbilhonante como a atual.

Leia-se, como comprovação do que digo, o uso reducionista que o organizador da antologia “Jardim de Camaleões” faz do processo comparativo de Pound, ao ler um poema de Fábio Weintraub ao lado de um de Antonio Risério. O pretexto para a comparação é o fato de ambos os textos terem sido escritos por poetas “que lançaram seus primeiros livros na década de 1990”. Não escapará nem mesmo ao leitor mais distraído a informação, anterior à tentativa de análise do poema, intitulado “Barrabás”, de que “(o) autor colaborou nas revistas CULT e Inimigo Rumor.” Claudio Daniel reproduz o texto de Weintraub e o comenta, com visível má vontade: “O vocabulário é simples, mimetizando a possível fala de uma mulher de condição social desfavorecida. Não há estrutura métrica ou rimas; o poema é construído em versos livres, curtos e coloquiais, sem nenhum artifício de linguagem, como metáforas ou metonímias. O autor não busca uma construção rítmico-melódica, nem apresentar imagens verbais de qualquer tipo. É uma antipoesia de crítica social que funcionaria de modo mais eficaz, talvez, no espaço do teatro, ainda que falte ação dramática à cena, que é estática.”

Ponho de parte, momentaneamente, a imprudente referência ao teatro, e parto para o que foi escrito sobre o poema de Risério, “Strassenkinder”. Ou melhor, remeto (Ah! As vantagens da web!) os possíveis interessados ao escrito em questão. Vale a pena ler, claro, os motivos listados pelo crítico para tomar o partido da – realmente notável – peça do poeta e antropólogo baiano, mas, já vou logo avisando, a simples contagem de linhas dedicadas à análise de cada poema jogará por terra qualquer ideia de “isenção crítica” que algum tolerante leitor pudesse atribuir a Claudio Daniel. Contra as 11 linhas com as quais o crítico se livra da tarefa de indeferir o poema de Fábio Weintraub – ao qual faltaria “arquitetura poética” –, nada menos que 47 linhas são utilizadas para justificar sua preferência pelo texto de Antonio Risério.

Sobre a menção ao teatro, custa crer que um poeta contemporâneo, que deve, quando nada, conhecer por alto poéticas cênicas como as de Samuel Becket e Robert Wilson – para ficar em dois nomes óbvios –, venha, a esta altura, falar em “falta de ação dramática” na suposta “cena, que é estática”. Se não quisermos nos aventurar longe demais da “literatura”, como ignorar, ainda, os textos de Gertrude Stein para teatro, em que nada acontece, do ponto de vista dualista que organiza, digo, paralisa a leitura de Claudio Daniel? (E que ninguém me venha acusar de comparar Fábio Weintraub aos artistas citados acima, façam-me o favor. Apenas contesto o simplismo da associação de “teatro” a “ação dramática”).

O mais interessante é que a “cena” do poema de Weintraub não é nem um pouco “estática”, contemplada de uma perspectiva menos empenhada em fazer do poema analisado apenas a comprovação de uma determinada tese. Vejam: se o “Strassenkinder”. de Antonio Risério deve seu impacto à forma como o poeta buscou transformar em constructo estético um dilema ético (o imperativo de trazer a público uma denúncia sobre a prostituição de crianças e adolescentes – há cerca de 10 anos, num memorável encontro em Niterói, tivemos uma longa conversa sobre isso – em Brasília, cidade onde ele vivia na época em que escreveu seu texto), o de Fábio Weintraub precisa ser lido para além do que seria a mera mimetização da fala de “uma mulher de condição social desfavorecida” (eufemismo para pobre).

Há mais coisas no poema. A mais importante diz respeito justo à dinâmica desse monólogo, que mistura a angústia pessoal da mulher, obrigada a resolver o problema prático do velório do marido, à sua indignação diante da hipótese de ter que velar o corpo ao lado “do desse aí/ que a polícia acertou”. Para essa mullher pobre, é moralmente inaceitável que o corpo do companheiro morto “com dois tiros nas costas”, enquanto trabalhava, divida espaço com o de um bandido. Aquele bandido morto, para ela, não só remete, sem escalas e matizes, ao assassino de seu marido, como iconiza todos os bandidos dos quais seu marido se distinguia, por ser um trabalhador.

Reparem que, mesmo em meio à certeza de que a memória do “marido honesto” não pode ser maculada pelo compartilhamento do espaço do velório com um “bandido”, essa mulher reconhece, por brevíssimos instantes, que o outro também tem direito a ser velado pela família (“Vocês me desculpem/ imagino o sofrimento/ perder um filho assim”). Ela, essa mulher fictícia, por certo não sabe que “bandido”, “trabalhador honesto” e “família” são conceitos construídos socialmente, daí manter-se fiel à confusa visão de mundo estabelecida pelos donos do Brasil e assimilada pelas classes “desfavorecidas” – que eram, não por acaso, até o início do século XX, chamadas de “classes perigosas”. A fala dessa mulher só pode ser, aí, uma “fala pobre”, uma fala da falta – em forma de falta –, que, ao contrário do que sentencia Claudio Daniel, ultrapassa o “mero registro de informações já lidas pelos jornais.”

Penso, e aqui encerro esta tentativa de conversa, que um poeta e crítico não pode se dar ao luxo de ler/ouvir só o que lhe convém, em termos pessoais. Devemos respostas, afinal, à dimensão pública da palavra – que, mais do que matéria-prima de nossas criações, orienta e redefine nosso senso de pertencimento ao mundo. Ouvir/ler apenas o que – e como – queremos, sem a mínima abertura para a escuta das vozes que se entretecem na voz do outro, é gesto esnobe e pouco produtivo, capaz de desservir, a um só tempo, tanto à possível e necessária oxigenação do contexto social, estético, cultural e político no qual vivemos e atuamos, quanto à imagem que nos esforçamos por cultivar e difundir de nós mesmos.

Claudio Daniel continua merecedor do meu respeito, graças à sua obra poética já publicada, mas não posso dizer o mesmo com relação às suas tentativas críticas: o pensamento binário ao qual ele se aferra – de que a insistência em discutir “cânone e anticânone” de uma visada tão canhestra é prova suficiente – é, em larga medida, um dos fatores responsáveis pela fragilidade da democracia brasileira. Afinal, sempre houve e haverá quem se satisfaça com o palavrório que substitui a reflexão e com a estridência de silêncios que negam, no outro, não importa quem seja esse outro, a hipótese da diferença.

2 comentários:

ronald augusto disse...

clowndaniel, o crítico empoado que se espoja em alheia poeira de linguagem só pode fazer essa forma retroativa de poesia pó de arroz contida em suas "obras". nem sua poesia sai ilesa.

obrigado, ricardo, por mais esse belo texto.

Pádua disse...

Este é mais um texto muito bem escrito de Ricardo Aleixo. O caráter estético-político do poema de Fabio Weintraub foi recalcado por C. Daniel em nome de uma política e de uma poética conservadoras, que necessitam negar a dimensão pública da palavra para que não tenham seus privilégios questionados.
E o que dizer de um poeta que acha, no século XXI, que a poesia precisa de métrica e rima? Está mesmo no século XXI? Que triste. Abraços, Pádua.