24.9.09

Foi assim em Maceió

Sobre a minha mais recente passagem por Maceió, na semana passada, bastaria reproduzir o que disse Susana Souto, do grupo Texta, ao me dar as boas vindas na quarta-feira: “Ricardo Aleixo já faz parte do calendário da cidade”. Não é pouca coisa ouvir frase como essa, dita em meio a sorrisos sinceros, mas há muito mais o que contar – quando menos, para fazer jus ao tratamento que todas as pessoas de lá me dispensam.

Começo pelo workshop Palavra : imagem : corpo : movimento, que reuniu os integrantes dos grupos Folia das Letras e Texta. Ao longo de toda a sexta-feira, compartilhei com a turma alguns dos procedimentos de que me valho em meu  treinamento cotidiano como performador. Mesmo para quem já tinha me visto em cena ou trabalhado comigo no workshop que ofereci na cidade em 2007, o processo revelou-se desafiador, por exigir uma total entrega à noção do corpo como “mídia primária” (Harry Pross), um dos eixos da minha concepção sobre performance.    

Já caminhando para a conclusão do workshop, apresentei à turma o meu “assistente”: uma caveira de plástico verde, que comprei de um camelô dias atrás, atraído pelos sons que se pode extrair dela, ao puxar um cordão acima de seu crânio e ao manusear seus braços e pernas. Deslocado aos poucos da condição de presença estranha para a de “assistente” de todos e de cada um, ali, o pequeno ícone da “indesejada das gentes” – que está sempre “à nossa esquerda, à distância de um braço”, como ensinou o bruxo Carlos Castañeda – receberia do bailarino Jorge Schutze o nome de batismo mais óbvio e preciso: "Assis".

O jogo consistia em explorar por um breve tempo os sons do corpo de “Assis”, eliminando-os totalmente, contudo, ao tentar passá-lo para a pessoa situada à esquerda. Trabalhávamos em círculo, como gosto de fazer sempre, posto que a roda instaura uma ideia de possível continuidade – necessária, num processo de trabalho, como o que faço, inteiramente calcado na produção da descontinuidade (rítmica, gestual, visual, timbrística etc.). Como resultado, o silêncio da entrega. E o da recepção.

Essas tentativas – em que “Assis”, com sua voz desafiadora e sem sílabas, parecia dizer a todos: “tente” – propiciaram alguns movimentos de muita intensidade e beleza, os quais foram, em graus diferenciados, reutilizados de diversas formas na finalização dos exercícios desenvolvidos, até então, com os haikais que enviei para cada um, por email, dois dias antes, com as instruções sobre como deveriam começar a trabalhar o poema.

No sábado, logo no final da manhã, fui com Gláucia Machado e Jorge Schutze para o Centro Cultural do SESI Pajuçara começar a montagem da performance. Para dizer o mínimo, divido com os dois o sucesso alcançado pela performance junto ao público: Gláucia, para além da expertise poética, revelou-se uma produtora atenta a cada pedido meu, com relação às necessidades técnicas – que não são poucas. E fez o que eu nem imaginava que ela faria, como conseguir o apoio de um restaurante excelente e assegurar uma divulgação de igual nível, com direito a entrevista exclusiva para a Gazeta de Alagoas – chamada com foto na capa e página inteira no caderno de cultura –, conduzida por Elexsandra Morone, na noite em que cheguei a Maceió.

Jorge Schutze, por sua vez, só fez confirmar as boas impressões que me causou quando o conheci, em 2007. Que artista e homem mais generoso! Imaginem vocês que ele se abalou desde sua casa no final de uma manhã de sábado para me ajudar a resolver questões referentes à luz e aos vídeos... Trata-se de problema renovado a cada performance, uma vez que o placo se transforma num ambiente em que se entrecruzam: meus constantes deslocamentos entre a mesa onde ficam os instrumentos que uso e o primeiro microfone – no canto direito – e o segundo microfone, no lado oposto; uma televisão em que passa o loop de um vídeo – à frente da mesa, no chão; as projeções superpostas (com as imagens vindas, respectivamente, de um projetor fixo e de outro móvel). O problema, aí, pode ser sintetizado da seguinte forma: como iluminar devidamente a cena sem atrapalhar as projeções?

Por conhecer meu método de trabalho, Jorge – que já colaborou com o grande mestre japonês Min Tanaka – me ajudou a encontrar a melhor solução num tempo bem mais curto do que o previsto. Resolvidos também os (nada pequenos, devido à enormidade de tralhas com que passei a trabalhar de uns 3 anos para cá) problemas relacionados ao som, só me restava agradecer meu amigo da melhor maneira possível: convidando-o para improvisar comigo. A princípio, faríamos um único número juntos, mas como – e em nome do quê? – desperdiçar tanta energia e tanto talento? 

Finalmente, quero dizer uma palavra sobre o grupo Texta, com quem mantenho parceria desde o ano passado, quando demos início à gravação do primeiro CD deles. O que Gláucia Machado, Susana Souto, Marcelo Marques e Tazio Zambi estão fazendo em torno da interação palavra escrita/som é algo raro de se encontrar neste país em que a maioria dos poetas ainda pensa a gravação como mero “registro” de sua voz lendo um poema. Sem exagero, posso afirmar que a viabilidade do meu trabalho como poeta/performador foi garantida, neste ano marcado por tantas perdas, pela possibilidade de voltar a Maceió para ser mais um entre iguais – aquele senso de igualdade, registre-se, que só vinga em contextos estético-culturais e políticos em que a escuta atenta da fala do outro nos conduz ao jardim das delícias (Epicuro) ou, para lembrar, ainda uma vez, o filósofo Agostinho da Silva, à vida conversável.

PS: E ainda ganhei presentes de aniversário, vejam vocês! Ah! A foto é de Tazio Zambi.

4 comentários:

fabiano Silmes disse...

Está assim...entre pessoas que entendem e respetem o nosso processo criativo é por si só um estímulo a mais para continuarmos produzindo as nossas obras.

Abraços.

Leke disse...

caro ricardo: a generosidade é algo contagiante. você apenas recebeu o que nos deu. parabéns, e obrigada por tudo.

Gláucia Machado disse...

Sua pre/sença em Maceió nos movimenta, ilumina, alegra.
Abraço forte!

cia.ltda. disse...

sempre uma simpatia em sabedoria e talento.
A energia que emana desses encontros faz a terra girar.

beijos