10.6.08

Título



Raro e vero artista da palavra, só mesmo Affonso Ávila para fazer com que eu tomasse do Palácio das Artes o rumo, em noite de rua cheia, como a de ontem, para buscar um exemplar autografado de sua poesia escrita entre 1949 e 2005, reunida em Homem ao Termo (Ed. UFMG, 669 pp.). É que, em tempos de grossura generalizada, Affonso continua a ser, na minha imaginação de fã, o "caballero de fina estampa" que aprendi a admirar desde o fim da infindável adolescência, há três décadas, quando produzi minha primeira série de tentativas poéticas. Para dizer o mínimo, devo a esse inventor da poesia contemporânea em Minas o gosto barroquizante pelas permutações frásicas ("eu em análogo de outros/ eu em anódino de outros/ eu em anônimo de outros", p. ex.) que permeia todo o meu projeto de criação e, mais importante ainda, a inspiração para que eu nunca, jamais sequer considerasse seriamente a hipótese de entrar para a universidade ("doutor em ciências ocultas e letras apagadas/ aprendi o universo no meu verso", diz o dístico de O Visto e o Imaginado em que o poeta, crítico literário e decano dos estudos sobre o Barroco mineiro brinca com sua condição de autodidata). Ontem, ao cumprimentá-lo pelo livro e pelos oitent'anos de vida, ouvi com emoção sua resposta firme e carinhosa: "Fiz a minha parte na defesa da poesia. Agora é com vocês". E me brindou com uma dedicatória à qual atribuo, de coração aceso, o valor de um título de pós-doutor em "letras apagadas": "Ao Rique, poeta e amigo, esta lembrança da trajetória do Affonso Ávila". O resto é vida literária.  

PS: Outra cena memorável da noite de ontem: meu amigo e parceiro de palco Benedikt Wiertz (comento depois a passagem por São Paulo) lendo em voz alta os poemas do ciclo Discurso da Difamação do Poeta: ele quase chorava, de tanto que ria. 

2 comentários:

gláucia machado disse...

salve, ricardo! e tomara chegue o dia em que títulos universitários sejam de fato o reconhecimento pelo feito. nesse dia, ricardo e affonso terão lugar devido na academia.
ps.vale dizer que isso importa mais para a universidade brasileira que para a poesia de ambos.

Luiz Carlos Garrocho disse...

Maravilhoso, Rique Aleixo!