12.1.08

Vocalidades


Diário do Nordeste/Caderno 3


Fortaleza-Ceará, sexta-feira, 11 de janeiro de 2008.

Ouça o livro e leia o disco
por Carlos Augusto Lima




Ainda perdura um equívoco enorme quando se fala-trata de utilização de recursos sonoros na poesia, ou, em performance poética amparada em recursos sonoros, ou, ainda, poesia-sonora ou sei lá que nome você queira dar para essa combinação entre poesia, som e espetáculo cênico. Vamos pegar esta cidade como exemplo. Não raro aparecem aqui e ali algumas apresentações de poetas que, animadíssimos com a possibilidade do microfone, soltam sua verborragia histriônica e afetada, sem dó aos ouvidos presentes e interessados. Gritos, urros, destruição de equipamentos. É a apropriação sonora do berro pelo berro, a rebeldia pelo barulho e palavrão, como se estivesse aí o supra-sumo da vanguarda poética. No mais, qualquer um vira, da noite para o dia, performer. Porém, esse tipo de arranjo e postura aponta um conservadorismo tacanho sem igual, pois, de forma alguma, a forma é modificada, alterada, contrariada. A forma é a mesma, o texto não se rebela, não dialoga com o som e a sonoridade não altera de maneira alguma o que está escrito; o que, aliás, é sempre de qualidade duvidosa. Santa ingenuidade!

No entanto, nem tudo é drama. Durante duas vezes, Fortaleza pôde contar com a visita e interferências de um dos mais importantes pesquisadores dentro desta dita “poesia sonora”, o poeta Ricardo Corona. Uma primeira visita - que não é uma visita passiva, amena, mas cortante e perturbadora - se deu ainda em julho de 2006 , no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, para ministrar oficina e apresentar seu pocket-show “Tá Viva a Letra”. Ricardo repetiu a dose na cidade em maio do ano que se foi, também com oficina e apresentação no Centro Cultural do Banco do Nordeste. Nas duas ocasiões, os participantes das oficinas foram levados a pensar a performance poética como um gesto que, de forma alguma, está distanciado de um projeto que envolva pesquisa, estudo e pensamento. Ricardo estabeleceu alguns recortes históricos, frutos de suas pesquisas, dimensões sobre a apropriação do som e sua combinação com a palavra, além, claro, a idéia de que a poesia sonora também não estava, como pensam alguns, distanciada da perspectiva de um trabalho com o corpo, matéria fundamental que se soma à palavra e ao som. A visita de Ricardo pressupõe a percepção crítica do que se produz localmente, gerando, muitas vezes, um desagrado, uma tensão, absolutamente necessária e natural, além da incorporação plástica, dentro de seus espetáculos, de um determinado sentido, risco, linha, que perpassa os lugares. O trabalho está recortado pela paisagem, propondo uma outra paisagem motivada pelo som.

No trabalho de Ricardo (quase) tudo funciona: palavra escrita, som, luzes, corpo, apetrechos e penduricalhos vivos e virtuais. Um banquete sônico nem sempre deglutível, mas o que é incômodo pode ter força, potência criadora. Aqui o caos importa.

Resultado de algumas somas de trabalhos que Ricardo Corona vem desenvolvendo nos últimos anos, pesquisas de sua inquietude sonora, ou de seus silêncios, este perfeito avesso, eis que aparece na área Sonorizador (Iluminuras, 2007), seu mais recente trabalho impresso-gravado, mostrando a possibilidade do formato livro-disco. Em Sonorizador, a mesma presença de determinados “atritos de linguagem” que perpassam o rumo de Corona, uma vez que estão presentes além, claro, do explorar de sonoridades, alguns margeamentos com a dimensão plástica-visual, a apropriação do suporte H.Q. no traço parceiro de Maxx Figueiredo, a distorção do signo verbal que se amplifica na distorção do signo sonoro, e vice e versa. Pensar em poesia e som, para ele, é poder dispor de um leque de referências que vão “da poesia da música brasileira ao zaum, do fonetismo e letrismo Dada ao verbivocovisual da Poesia Concreta”, da oralidade ancestral através de uma pesquisa étnico-poética, presente neste Sonorizador sem, contudo, como mesmo afirma Ricardo Corona, “aderir com exclusividade a nenhum desses conceitos estéticos”. Mais ou menos como se pudesse dispor de uma pequena galáxia de referências, a qual deu o nome de “eletropoesiacústica”, e fizesse uso dela quando bem entendesse, quando bem quisesse, para criar uma tensão, através de resultados que não se firmam, não estão num viés do acabado, mas em constante descarga. É por isso que sempre penso que o trabalho de Ricardo Corona nunca pode ser visto-lido a partir de um único dado, da fragilidade de um de seus poemas impressos ou o que possa haver de monótono numa experiência poética-sonora, mas sempre a partir de um recorte maior, que abarque o sentido ético deste mesmo trabalho que se desdobra em pesquisa, editoração (Ricardo Corona foi editor de duas importantes revistas literárias: Medusa e Oroboro), espetáculo, corpo e voz. E aqui não posso deixar de fazer um link com outro Ricardo, só que Ricardo Aleixo, poeta mineiro, também criador de galáxias sonoras-visuais e tensões dentro da monotonia da poesia recente.

Bem assim como Ricardo Aleixo, Ricardo Corona transita entre outros espaços, onde está “fora de foco”, onde se constrói uma possível outra geografia poética para o país, ou fora desta mesma geografia, onde o que em se tratando de poesia já foi muito usual e onde pode ser novo e não se esgotar. No exato lugar em que se lê o som e ouve-se palavra. Há uma órbita aqui e que pode ser muito bacana.

3 comentários:

Rey disse...

Greatings from Belgium.

Cândido Rolim disse...

Aleixo, eu já tinha lido esta matéria no DN. mandou bem o Carlos sobre o assunto. estamos ligados.
abração
Cândido Rolim.

Anônimo disse...

Ricardo,
nos encontramos na estação de metrô Vilarinho, há uns três meses, e você me falou do LIRA. Estou interessado em conhecer o laboratório, ele está funcionando esses dias? Abraço.
Daniel Trindade
ieielaraujo@yahoo.com.br