8.10.11

Um presente do mestre Nei Lopes

FINA POÉTICA EM CAPA DURA

(quasipoema oito meses depois)


Fora de sacanagem!

A frase introdutora

De eu molecote

Me chega na entrega

Dos dois postais pacotes:

Um, Salgado Maranhão

O outro um Ricardo Aleixo.


Que doce

É esse salgado

Sem sombra de emaranhado.

Que absoluto nexo

É esse recado

Que liga o léxico

E o contexto se[ro]mântico

De cada um desses

Dois pacotes convites ao convescote

A mim e ao meu [con]texto?

Mineiro o emaranhado


Me disponho

Sem tentar decifrar

O que me traz essa mensagem

Postal

Contexto duplo

Gêmeo, mabaço:

Ibeji brinca

e reconduz meu passo.


Sem sacanagem:

Sábado, 25 de setembro

Assino, recebo, referendo

Dois livraços abraços

Aleixo, o salobro

Que pesca o peixe

E o mostra no anzol paterno.

E o doce Salgado

Que abole o emaranhado branco

Quase eterno

Da escrita.


Salgado

Negro olímpico!

Aleixo escrita zero máquina!

A poesia batia de novo

Em dose dupla

De leve

No meu fígado

No meu sábado.

Fina poética negra em capa dura.

Vinte e cinco de setembro

Quase Ibêji.

3.10.11

Em resenha inédita, Ângelo Oswaldo fala sobre "Modelos vivos"

A poesia de Ricardo Aleixo

Ângelo Oswaldo*

Em “Modelos Vivos”, Ricardo Aleixo reúne um conjunto significativo de poemas, depois de largo momento voltado para outras formas de expressão poética, tais como performances, vídeos e canções. É um belo livro. Oferece destacada programação visual dirigida pelo autor, sendo enriquecido pela diversidade da produção que enfeixa.

Com a publicação, o poeta registra os seus cinquent’anos, não em celebração jubilar, mas para reiterar o compromisso do primeiro olhar, o desejo de querer ver, por sobre a visão deficiente, algo que valha a pena, para além da falta de perspectivas que percebe como tônica do nosso tempo.

Ricardo Aleixo vem de 1960 e é poeta que sintetiza, de modo original e referente, as inquietações, as rupturas e as angústias que convulsionaram o mundo neste meio século de transformações. Sua obra atinge pontos sempre mais altos. Se a visão está afetada, como a de Camões & Bob Creeley & Joan Brossa, ele enxerga aquilo que só o poeta vê e a poesia alcança, por cima do glaucomatoso de Glauco & Borges, numa respiração. São poderosas as suas antenas, e é com elas que se faz o poeta, segundo Ezra Pound. Como o anjo de um poema do livro, o poeta aprende a se ver pelo avesso.

As palavras “são peles de silêncios habitáveis”. Ricardo Aleixo as veste, no seu “poemanto”, qual um parangolé de Hélio Oiticica (obra para vestir) ou como passos de Merce Cunningham (obra para dançar) ou o rito dos Eguns (obra para reviver). A palavra é viva e é vivida pelo poeta, que a escreve-inscreve com seu corpo e com ela o cobre, volatiza o andar, sonoriza o espaço, toca o tempo. O “poemanto” é imantação da poesia no corpo do poeta.

Nessa corpografia, ao pé da letra de Artur Bispo do Rosário, “andando em círculos” (porque “estamos mesmo é andando em círculos”), o poeta usa o seu manto como o toureiro a capa, em passos encadeados como numa fuga, ou o agita num batuque, revira-o em volteio de volutas em altares barrocos, ginga-o na reviravolta da capoeira ou mergulha na constelação de Mallarmé, soltando as palavras no espaço para reinventar o poema ao acaso de cada lance de corpo.

Inovadora e inventiva, instigante e incisiva, a poesia de Ricardo Aleixo apresenta uma linguagem própria, que não se restringe ou se reduz. É sempre múltipla e entregue a pesquisas sobre novas possibilidades. No final do poema que dá o título do livro, está a questão: “...Pergunto-me, como se perguntava Heinrich/ Kleist sobre os manipuladores de marionetes que tanto// encantavam o amigo a quem devia o despertar do interesse/ pelos mistérios daquela arte de rua, se os passantes-// pagantes conhecem os mecanismos que movem os modelos/ vivos; se possuem pelo menos uma ideia do belo na dança”. Têm, da mesma forma, os leitores que passam pelas livrarias alguma ideia do valor da obra de Ricardo Aleixo? É preciso urgência no conhecimento de um modelo vivo do poeta do nosso tempo.

* Crítico de arte, escritor e prefeito de Ouro Preto

22.9.11

Como diz a letra de Antonio Risério,

"eu vi [estou vendo] um Jabuti comendo jabuticaba".

19.9.11

Música para modelos vivos movidos a moedas

A performance Música para modelos vivos movidos a moedas, na versão que só será mostrada nesta quarta-feira, 21 de setembro, se metamorfoseará em: 1) celebração do meu aniversário (51 anos + uma semana) e da classificação do Modelos vivos para a fase final do Prêmio Portugal Telecom; 2) banca de poeta-camelô, para venda do livro acima citado ao preço promocional de R$ 25,00; 3) show de calouros, que premiará com um exemplar do Modelos vivos cada uma das três melhores leituras em voz alta de um poema do livro. PS: Nesta quinta-feira, enquanto descanso da performance, volto a cuidar do assunto de que trato no post abaixo.