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27.3.08

Poiesis, autopoiesis


Pouca coisa vi e ouvi, em termos de poesia performativa, que me interessasse tanto quanto as estupendas realizações do pianista e improvisador estadunidense Cecil Taylor (1929) de que tomei conhecimento recentemente. A primeira de uma série infindável de surpresas foi constatar que o Taylor poeta-performer não toca, pelo menos nos trabalhos a que tive acesso, o instrumento que fez sua fama: cantofala (com o corpo todo, ele, que é bastante ligado à dança), lançando mão, a espaços, de algum breve efeito percussivo ou de sutis alterações da voz com que entoa - por vezes, como um xamã - textos sustentados por uma notável destreza rítmica. Selecionei, para abrir o dia, dois momentos da (auto)poiesis de um dos precursores do free-jazz: o disco Chinampas, gravado em 1987, e uma arrebatadora performance vocal (seguida de um típico solo de piano tayloriano) realizada em outubro de 2004. Para quem der  conta de tanta beleza, uma boa nova: a poesia de Cecil Taylor será tema do programa Rádio Escuta, de Lilian Zaremba, no próximo dia 8/4, terça-feira, à meia noite em ponto, na rádio MEC-FM. Sei que não quererão perder a chance de conhecer algumas das muitas pequenas jóias de sensibilidade, elegância, humor, inteligência e espírito verdadeiramente livre produzidas por esse grande artista nosso contemporâneo.